Posted on abril 7th, 2009 at 2:47 AM by Paulo

Matt Richtel e Bob Tedeschi

Enquanto as indústrias da música, televisão, jornais, livros e videogames batalham para encontrar uma maneira de prosperar no novo mercado digital, um setor parece ter encontrado a fórmula vencedora: as empresas pioneiras conhecidas como operadoras de telecomunicações. Os consumidores vêm usando seus celulares para baixar dezenas de milhões de jogos, canções, ringtones, vídeos. E desembolsam dinheiro por esses itens, mesmo que resistam a pagar por eles quando os baixam da internet para seus computadores.

É uma equação curiosa: pagar por algo que será exibido em uma tela minúscula e de baixa resolução, enquanto os mesmos jogos e vídeos são baixados de graça para um moderno monitor de alta definição. Em sua feira anual, esta semana em Las Vegas, o setor de telefonia móvel divulgou novas lojas online, players de vídeo, jogos e serviços de conteúdo. Os esforços de todas as empresas se baseavam em uma variação digital do reflexo pavloviano: o celular toca e nós pagamos.

“Não havia expectativa de que coisa alguma fosse fornecida de graça”, disse David Chamberlain, analista do grupo de pesquisa In-Stat. “As empresas de telecomunicações sempre tomaram muito cuidado para não oferecer nada gratuito”. Em contraste, diz: “Muita gente na internet agora se pergunta por que ofereceram tanta coisa de graça”.

Pode ser que a diferença se relacione às origens dos dois setores. “A informação quer ser livre” há muito tempo é um dos lemas de muitos dos pioneiros da internet. A mitologia da rede dispõe que seus criadores a conceberam como utópica e aberta – dois termos raramente usados para descrever a experiência da telefonia.

Um exemplo da diferença gritante entre telefones e computadores é o conceito de micropagamentos. Os jornais e outros provedores de conteúdo examinaram o método – conseguir que as pessoas pagassem preços baixos pelo conteúdo e serviços – como possível resposta aos seus problemas de faturamento na web.

Mas o setor de telefonia opera um sistema de micropagamentos há décadas. Desde que as empresas de telefonia locais começaram a cobrar US$ 0,35 do usuário que desejava ouvir a previsão do tempo, o setor vem cobrando pelo conteúdo. Se somarmos a essa cultura da cobrança onipresente a capacidade de oferecer a um cliente o que ele quer, onde quiser, surge uma poderosa alquimia.

O grupo de pesquisa de mercado Piper Jaffray publicou um relatório recentemente no qual afirma que antecipava que os consumidores gastem US$ 13 bilhões em downloads para seus celulares em 2012, ante US$ 2,8 bilhões este ano. O relatório classificou a popular loja da Apple para vender aplicativos destinados ao seu iPhone como “o ponto de inflexão”.

Ao tornar conveniente a aquisição de aplicativos, a Apple conseguiu promover a venda em grande volume de software que, se oferecido para computadores, usualmente seria gratuito. O aplicativo de contagem de calorias LiveStrong, por exemplo, sai de graça para instalação em computador mas custa US$ 2,99 na Apple App Store.

No entanto, para alguns consumidores, pagar por serviços e produtos para o celular parece diferente, e mais razoável, do que pagar pela mesma coisa no computador. Sabrina Sanchez, mãe de dois adolescentes em Pleasanton, Califórnia, começou a encarar despesas cada vez maiores com o download de jogos e ferramentas de navegação.

Ela diz que começou a impor regras em fevereiro, quando seu filho de 12 anos acumulou US$ 25 em despesas de download em seu celular. “Não quero que eles se acostume a gratificação instantânea”, ela disse. “É como um caça-níqueis”.

Sanchez diz que a probabilidade de que ela e seus filhos adquirissem alguma coisa no celular era muito maior do que no computador. “Nunca comprei um jogo casual na Internet. Os meninos compraram um ou dois, mas nada parecido com o movimento que tínhamos nos celulares”.

Os criadores de conteúdo dizem que os consumidores apreciam a gratificação instantânea de fazer downloads onde quer que estejam. Em contraste, os usuários de computadores pessoais precisam enfrentar número maior de passos para pagar por suas compras online, porque em geral precisam fornecer informações sobre seus cartões de crédito a cada aquisição.

Pesquisas demonstram que, quanto maior o número de passos que uma pessoa precise dar para pagar, menos provável é que compre alguma coisa. Além disso, as pessoas estão simplesmente mais acostumadas a pagar pelas coisas, nos serviços de telefonia. Um dos serviços pagos para celulares é o download de programas de TV, por meio de empresas como a MobiTV, de Emeryville, Califórnia, que formata programas de televisão para celulares.

Cerca de 5,5 milhões de pessoas nos Estados Unidos estão pagando US$ 10 ou mais a cada mês para operadoras como AT&T, Sprint e Alltel, que oferecem o serviço da MobiTV. “As pessoas não podem carregar com elas um televisor de plasma com tela de 48 polegadas”, disse Ray DeRenzo, vice-presidente sênior da MobiTV.

Mas há observadores que questionam por quanto mais tempo os usuários se disporão a pagar por conteúdo para seus celulares. Paul Jacobs, presidente-executivo da Qualcomm, que oferece um serviço de TV para celulares chamado MediaFlow, disse que a empresa esperava começar a oferecer programação de TV aberta gratuitamente em breve, e que só cobraria por programação premium, como a dos canais de TV a cabo.

A despeito do sucesso dos aplicativos pagos para celulares, há milhares de aplicativos gratuitos disponíveis. Uma empresa, a GetJar, oferece cerca de 20 mil serviços como esse, de jogos a software de produtividade, e vem registrando 33 milhões de downloads ao mês.

A Apple também oferece muitos aplicativos gratuitos, entre os quais o Skype, que permite ligações gratuitas via internet (ainda que o usuário tenha de pagar a tarifa de transmissão de dados de sua operadora). O programa foi baixado para mais de um milhão de aparelhos nas 48 horas posteriores ao seu lançamento, na semana passada.

Ainda assim, os provedores de conteúdo para aparelhos móveis continuam felizes por poderem receber. Um deles é a Kinoma, de Palo Alto, Califórnia, que oferece um navegador de US$ 30 que permite aos usuários de celulares navegar pela web e organizar sua música, entre outras funções.

Brian Friedkin, co-fundador da empresa, diz que vendeu “muitos milhares” de downloads pagos – ainda que muitos dos recursos que oferece sejam gratuitos em um computador pessoal. “É difícil dizer por que os usuários de celulares estão dispostos a pagar”, afirma. “Mas para nós isso é ótimo”.

Tradução: Paulo Migliacci ME.
The New York Times

Posted on abril 7th, 2009 at 2:44 AM by Paulo

Jill Colvin

Quando Steve Hamrick deixou seu último emprego, como gerente em uma produtora de software, havia pelo menos 25 mensagens que ele não tinha ouvido em sua caixa de recados. E isso sem contar as ligações não atendidas em seu celular e em sua linha fixa doméstica.

Não é que ele não goste de falar. Mas com a cascata de mensagens que recebe por e-mail, no celular e no Facebook, Hamrick, 29, que se descreve como portador de “fobia a mensagens de voz”, disse que encontrou modos melhores de manter contato.

“Eu tinha de deixar alguma coisa de lado, e no meu caso a escolha foram as mensagens de voz”, disse. “É como cortar certas formas de comunicação para abrir espaço a outras”.

Quando foi introduzido, no começo dos anos 80, o serviço de correio de voz era alardeado como invenção miraculosa – um modo de elevar a produtividade nos escritórios e de organizar a vida nas residências mais movimentadas. Os roteiristas de Hollywood logo incorporaram o recurso às suas tramas: heroína chateada chega em casa e vê a luz vermelha de sua secretária eletrônica piscando; nela, uma mensagem de um homem apaixonado implora por nova chance de consertar as coisas, e o amor triunfa.

Mas na era da gratificação instantânea, o esforço de apertar o botão e ouvir a mensagem – ou, pior, ligar para um serviço e digitar um código – parece demasiado.

Muita gente detesta o processo ou, como Hamrick, o evita completamente, o que suscita a questão: o correio de voz está se tornando obsoleto?

“No passado, esse serviço era útil”, diz Yen Cheong, 32, que trabalha como relações públicas em uma editora de Nova York e hoje praticamente só usa e-mails e mensagens de texto. No cálculo dela, verificar uma mensagem de voz requer entre sete e 10 passos, enquanto verificar um e-mail requer de zero a três.

“Se você deixa uma mensagem de voz, tenho de ligar para a caixa de mensagens, digitar meu código. Depois que ouço a mensagem, preciso do número do telefone; tenho de anotá-lo, e usualmente preciso ouvir a mensagem de novo para isso”, ela diz, simulando exaustão.

Tim Kassouf, 24, de Baltimore, que se declara “inimigo declarado das mensagens de voz”, contou que tinha 68 mensagens, 62 das quais não ouvidas, na caixa de mensagens de seu celular. Scott Taylor, 41, gerente sênior em uma empresa de comércio eletrônico em Phoenix, diz que as mensagens de voz “são um meio totalmente ineficiente de comunicação, uma coisa antiga demais”.

Como muita gente, a mensagem de correio de voz de Taylor alerta as pessoas que tentam contactá-lo a ligar para seu celular ou enviar um e-mail, se têm pressa de falar com ele.

É um bom conselho. Pesquisas demonstram que responder a mensagens de voz demora mais que a outras formas de comunicação.

Dados da uReach Technologies, que opera os sistemas de mensagens de voz da Verizon Wireless e outras operadoras de telefonia móvel, demonstram que mais de 30% das mensagens de voz não são ouvidas por três ou mais dias, e que mais de 20% das pessoas que têm mensagens em suas caixas de entrada “raramente ligam” para verificá-las, diz Saul Einbinder, vice-presidente de marketing e desenvolvimento de negócios da uReach.

Em contraste, 91% das pessoas com menos de 30 anos de idade respondem a mensagens de texto em prazo de uma hora, e é quatro vezes mais provável que respondam a elas do que a mensagens de texto em prazo de minutos, de acordo com um estudo que a Opinion Research conduziu para a operadora de telefonia móvel Sprint, em 2008. Até mesmo as pessoas de mais de 30 anos têm duas vezes mais probabilidade responder em minutos a uma mensagem de texto do que a uma mensagem de voz, constatou o estudo.

Não existem estudos comparativos sobre o volume de mensagens de voz que os norte-americanos utilizam hoje, em comparações a períodos passados, mas se essa tecnologia parece destinada à obsolescência – como muitos especialistas em comunicação suspeitam -, o que propele a tendência são os hábitos dos jovens.

As pessoas de menos de 25 anos costumam responder às mensagens de amigos e familiares sem verificar o conteúdo da mensagem primeiro. Graças à tecnologia dos celulares, elas podem ver quem ligou e retornar a ligação diretamente, sem primeiro verificar a caixa de mensagens. “Você não recebeu o recado?”, perguntam os pais. “Não”, dizem os filhos, “mas vi que você ligou”.

Para atender às pessoas que não têm paciência com as mensagens de voz, as operadoras de telefonia móvel estão lançando novas alternativas em formato texto que prometem tornar a comunicação mais fácil e mais eficiente.

A mais popular é o Visual VoiceMail, que vem como padrão no iPhone e está disponível outros celulares inteligentes, como o Samsung Instinct e o BlackBerry Storm. O aplicativo exibe mensagens em uma caixa de entrada visual, como a do e-mail, e permite que os usuários escolham que mensagem ouvir, na ordem que preferirem.

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times

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